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Fazendo o Bem...

Fazendo o bem para quem dele precisa
é fazer sem olhar a quem;
multiplicar, repercutir a vida,
o bem se reinventa, produz outros bens.

Fazer o bem sempre,
na chegada e na partida;
o bem pelo próprio bem,
e abundantemente de bem
enquanto iniciativa!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Cacareco (Roberto Camilotti)

Cacareco.
Prego.
Treco.
Martelo.
Nunca, um marreco!
Porque marreco é parecido com gente
mas não é treco.
E nada tem de cacareco!

Cacareco é coisa que não serve mais,
é coisa deixada de canto, escanteada para trás.
Não pode ser referida igual gente.
Gente fala, pensa, come e dorme!
Gente pode ser tudo.
Tudo, menos o nada/tudo de um cacareco!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Advertência! (Roberto Camilotti)

Advertência: ninguém está livre da negligência!
Ou libertado do azar de um descuido!
Ninguém se safa do que ainda não foi cometido!
A negligência vem sempre depois de um abuso!

Negligência é mais do que má sorte!
É descaso, abandono, dolo!
É mau trato, mau uso!

Repito: ninguém está livre da negligência!
No entanto, previna-se!
Corrija-se!
Mude imediatamente teu curso!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Solidão Acompanhada (Roberto Camilotti)

De todas solidões, a pior é acompanhada;
todas as outras morrem, um dia admiradas;
sejam deixando suas dores, sejam marcando suas chagas!

[Um homem parado na estrada, ouvindo música no carro, não necessariamente é um solitário. Ele pode estar ali por estar, apenas aprendendo a ser um pouco mais feliz sozinho.]

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Duelo de Facas (Roberto Camilotti)

Faca.
Foice.
Facada.
Foice.
Faca.
Traição pelas costas!

Foice.
Faca.
Duelo de facas.
Duelo de foices.
Foice.
Fachada.
Facada nas costas e foice a amizade!

Faca.
Facada.
Foice.
Fachada!
Foi.
Traição de amigo, também foice a amizade!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

O Estrepe (Roberto Camilotti)

Doeu!
E doeu muito mesmo!
Estrepe fincado no dedo do meio.
No meio da ponta do dedo, cantinho esquerdo!
Pontinha do dedo, lá perto da unha; ponta do dedo do meio!
Estrepe maldito do pau da vassoura.
Pequeno e pontudo, ponteiro!
Coisa simples, um tormento.
Vejo:
Praguejo:
E esbravejo:
Porcaria de estrepe!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

O Grande Momento na Vida (Roberto Camilotti)

O grande momento que temos na vida,
a felicidade nas pequenas coisas,
não enche a sua e nem a minha gaveta,
não pode ser achado em quaisquer guarda-roupas;
é o que perdura e o que ecoa feito boa lembrança na memória,
é aquele momento raro, assim infinito;
é o todo dos grandes momentos da vida, dos que a fazem valer a pena,
é tocar a música certa para cada indivíduo, para cada coração,
é saber quando chegar, como e por onde entrar em outra vida,
é reconhecer o direito dos que se vão, o valor também na partida,
é saber-se o mais pleno possível, íntegro consigo,
é falar e fazer só o que realmente importa, relaxar,
é levantar morada para quem fica, semear a gratidão.

[O grande momento que temos na vida é a própria vida: incoerente, imperfeita, misteriosa, rica, bonita; vêm de entender que tudo tem o seu tempo, mesmo quando incompreensível for a sua razão. A vida não se explica, acontece!]

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Invenção da Saudade por Outros Nomes (Roberto Camilotti)

A Saudade, fina névoa.
Contagiosa pelo sangue.
Onde crescem os sentimentos.
A que envenena os futuros.
Por todo o sempre, o antes!

Fina névoa aos companheiros.
Põe amigos a toda prova.
Complicadas desse jeito.
A Saudade, pequeno mau atroz!

Cicatriza mas não tem cura.
Nunca serve a quem a sente.
Saudade, essa, dos que padecem.
Veneno doce, o medo de frente!

Da mais simples à opulência.
Sentimento triste, adentra moradas.
Faz-se mais rude nos soldados.
Batalha insana, o pior das guerras?
É farda de nuvem! Fígado. Barrigada.

Um sussurro fino, moribundo.
Saudade, aquilo que se inventa.
Sejam amigos, sejam amantes.
De gestos nobres e elegantes.
Delírio humano, humanidade atenta?

Dos sentidos e sentimentos.
O saudosista é costumeiro.
Cresce, cresce e incomoda.
Iguala vítimas ao prisioneiro!

Castidade nua, s de sal.
Invenção ingênua do Tempo.
Saudade: fé com Carnaval?
Saudade com s de sentimento.

Nos meninos, paixão no homem.
Nas meninas, mulher intensa.
Todos os nomes da Saudade
dá-se o amor em recompensa.

Mais que uma falta por outros nomes.
Pouco em pouco, tecendo teias.
De gente fina e de gente pobre.
De fato lógico e de fato nobre.
Dos bem-nascidos e dos sem cobre.
Seria, a Saudade, santo capricho de Deus?

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Um Shakespeare que só farfalhava o melhor português (Roberto Camilotti)

Eis por que eis aos poetas da vez!
Conheceu-se, ele, um Shakespeare e seu melhor português.
Orador às olivas anunciando vida às cortiças:
Eis o melhor português!
Conhecido nas Califórnias, na real e nas imaginárias:
desbravador da Bahia, do Belgrado e do Monterey!

Shakespeare, um misterioso que se achava burguês.
O grego e o romano: eis por que eis!
Dizia-se, ele, poeta de dentro da alma, o que falava ao futuro, um patrício e um cigano.
Conheceu-se, ele, de um sangue perdido, renegado, mas não menos bretão.

Eis por que eis, aos poetas da vez!
Conheceu-se, ele, profeta letrado, sábio dos sábios, andarilho montanhês!
Farfalhava-se, ele, dos fundamentos do uso da língua.
Shakespeare, eis por que eis o Lusitano, o de sempre e o da vez!
Dramaturgo esquecido: o da Família Cortêz, o que nunca se fez!
Do romance à comédia: um louco que só versava ser rei por ser insano.

Eis por que eis:
O de nome Octávio Shakespeare de Guimarães e Cortêz!
Não conhecia-se sem glórias. O poeta dos Açores prussianos: o pai de todos nós!
Shakespeare das folhas, primo escriba Russo, a semente moderna do ser europeu.
Eis por que eis um velho ainda que jovem: o próprio futuro!
Shakespeare das folhas, um yankee pretérito, o da Família Cortêz!

Eis porque eis:
Um homem bom!
Poeta!
Português!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Osvardo: Terra dos Pedros (Roberto Camilotti)

Cidade média, Terra dos Pedros,
existiu matuto a destruir, brutal.
No peito seco, rachado e fundo,
fez-se, Osvardo, príncipe lacrimal.

O feminino das fêmeas.
Cavalo selvagem, o mais fraternal.
Osvardo das valas, o desvalido,
eis apenas um, mesmo sendo plural!

Amigos que o ouvem cantando,
gente desmerecida de maus.
Osvardo, andante mulambo!
Rio de lama sob canoa sem paus!

Falassem, as pedras, pedreiras e Pedros:
aquele Osvardo de vida banal!
Nascera bom, menino de Deus.
Dois destinos e nenhum por sinal!

Osvardo das serras do México.
Osvardo de um sonho natal.
Falassem, as pedras, pedreiras e Pedros:
você, Osvardo, indistinto amigo,
eis o eterno caído, inimigo do mau!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Significado e Significância (Roberto Camilotti)

Que significa o significado?
Impressão, valor das coisas?
Onde se acha, se alcança?
Em amores perdidos, entre beijos?
No elogio sincero, derramado?
Significados em uma significância!

Como se acha, se encontra?
Na verdade.
Na importância.
É significado tendo significância!

Quantos significados hão na significância?
Uma cadela amamentando sua cria: significando.
Sua cria frente o amor da cadela: significância.
Significado é a natureza existindo e importando.

Existe um existir existente no significado?
Uma mãe perdendo seus filhos, já não há um significado.
Filhos vindos ao mundo sem mães: significados sem significâncias.
Todo significado significa nas significâncias; e ficam!

Significado é o que existe, é o real.
Significância, o que importa e vai significando.
Significados significam com significância.
E ficam, ficando, significantes!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Areias do Tempo (Roberto Camilotti)

Primeiro de abril,
viveu-se uma história.
Sentimentos no tempo.
Fato, verdade, memória!

Assim se amaram:
um descuido divino.
Acidente. Acaso.
O Amor e a Morte.

E logo disseram-se:
juntos, podemos tudo!
De nada sabiam.
Dois tolos, estúpidos!

Deus tolerante.
Os anjos os amavam.
Mistérios? A sorte?
Viveu-se uma história.

Escrituras à vida,
promessas do amor.
Que se amem! E se amaram.
Se amarão! Veio a Luz. Amando-se.

Viveu-se uma história.
Passageira do tempo!
Ao passado: o amor, aqui, amou!
Passou passando, e a Vida ficou.

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

O Ovo e a Tartaruga (Roberto Camilotti)

O caso mais entranho de amor.
O ovo deu paixão na tartaruga.
Passado os segundos que botou.
Admirou-se, a tartaruga, seu ovo cor de uva.

Juntos ficaram dias e dias,
um ovo e uma tartaruga.
Afundadinhos na areia, protegendo-se:
Criadora e a criatura!

Mãe e filho, filho e mãe!
O ovo, a paixão da tartaruga.
O caso mais estranho de amor.
Mais que um ovo, o ovalado cor de uva!

Bebezinho, gut-gut, querido:
O ovo de uma tartaruga!
Imenso amor, carinho eterno,
a natureza fazendo travessura!

[O resto dos seus dias na praia, a tartaruga nunca mais sairia de perto do ovo, que, por sua vez, nunca se prestou a chocar. Que outro ovo se prestaria? Haja amor tão dado de um ovo a uma simples tartaruga!]

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

O Coração de Natalina (Roberto Camilotti)

Secas e fome.
Sol de Agreste.
Dureza, dureza!
Natalina Fernandez,
mãe de tristeza!

Um marido covarde.
O Genivaldo que amava.
Feliz? Pelo mundo?
Cigano de estrada!
[Barriga vazia e a alma no chão.
Natalina Fernandez não tinha dinheiro mas também não tinha FÍOS.]
Graças a Deus!

Sofrida, sofrente.
Um doce de fé!
Sonhava e sonhava:
[Misericórdia, meu Deus!]

De fibra, silvestre,
sozinha, MUIÉ.
Coragem, coragem!
[Aquela que respira fundo, levanta a cabeça e enfrenta mil demônios em pé.]

Outono de oitenta,
então, decidiu:
Chega, eu cansei!

PRA SUMPAULO, MIMBORA!

E não é que partiu!



Arara em arara,
em SUMPAULO chegou!
Capital do dinheiro,
a Cidade do Horror.

Cimento e ferro,
os PRÉDIO nas NUVEM.
Natalina não se acovarda.
BATAIA, BATAIA!
[É demitida pelas PATROA, mas não desisti da luta!
Aos setenta e sete, há de resistir até o fim!]

Barriga vazia,
nativa do chão.
Natalina, a perfeita!
Repressão de polícia,
pactua com o Cão.

Ao chegar NAS QUEBRADA,
sentou e chorou.
Um cara pergunta:
Por que choras, dona?
Prazer, seu protetor!

TRABAIANDO PROS CARA,
na vida, se fez.
Natalina, valente,
perdeste de vez!

Pobre e bandida.
A alma vendeu.
Menina do agreste.
Pei! Pei! Pei!

[PROS TIRA, ajoelhou, levou três PIPOCO na cara e morreu!]

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Segredos da Poesia (Roberto Camilotti)

Folhas de papel.
Desenhos ao mundo.
A rima perfeita.
A métrica, o assunto.

Palavras que cantam.
Espírito sujo.
Cartas na porta.
Vadiagem!
As valas e o luxo.

Vidas se repetem.
O tempo é em tudo.
Amando e sofrendo.
É o nada, bem junto!

Passa-se o tempo.
Acidental confusa.
Vê-se a expressão.
Falas, horas, segundos!

Na terra, na rima.
Gostos impuros.
Selvagem e sincera.
Perdendo e FREVENDO.
Ah, sim, também, eles, os russos!

Quais os segredos?
Coragens despertam.
Carências contusas.
Então, a escrita vai se abrindo, fechando.
Se abrindo.
Abrindo.
Fechando.

[Poesia, meus caros, é cabeça, fé, dispersão.
Também na Rússia!]

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Verbo Amigo (Roberto Camilotti)

Eu amigo.
Tu amigas.
Dois amigos se amigando.
Um verbo antigo, de muitas línguas.
Só se amiga acarinhando.

Um amiga.
Dois te amigam.
Três amigos se amigando.
Um verbo fácil, porém verdade!
Meu amigo me amigou.

Você se amiga?
Amigo simples.
Seu amigo se amigando.
Outro amigo e a roda cresce.
Quatro amigos vão cantando.

Canto amigo.
Amigo canto.
Todo mundo se amigando.
Verbo amigo.
Verbo canto.
Cantando, sorrindo, dançando!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Singeleza! (Roberto Camilotti)

Singeleza.
É singeleza!
Refinada singeleza!
A simplicidade em sua mais perfeita delicadeza.
O que é suave; finura e fineza.
Da miséria mais sofrida à mais alta realeza.

Deslumbramento?
É singeleza.
Na busca, no refinamento, na finesse!
Um gesto nobre por certo lúdico…
Com certeza!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Que é que é o parlamento? (Roberto Camilotti)

Que é que é o parlamento?
Casa de sábios?
Democracia.
Oposição?
Enfrentamento!
Teatro?
Hospício.
Mundo ideal?
Simulacro.
Dívida?
Dúvida?
Momento!

[Parlamento é tudo isso e a gente toda insistindo,
falando de si todo tempo.]

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Abaixo o Novo Homem das Cavernas! (Roberto Camilotti)

Nasceu então um certo bicho:
o Novo Homem das Cavernas.
Espécie nova, faltoso de bom espírito,
o que com violência mais violência gera!

O dedo em riste, olhar de briga.
Homem que é homem conversa!
Se nervoso, vai logo para cima.
Nunca se afasta, se acalma ou espera.

[Mulher, nunca aguente quem te oprime!]
[Abaixo o Novo Homem das Cavernas!]

Homem novo de um tempo velho.
Pouco em jogo e a confiança se quebra.
[O Novo Homem é feito de sorrisos e tem amigos, ainda assim, covarde, um agressor de mulheres!]

[Um minuto sozinha, a mulher logo se sente desprotegida por achar que não é ninguém se não estiver acompanhada. De pronto, o Novo Homem das Cavernas ataca, a seduz então, prometendo a melhor das vidas, mas continuará raso, progressivamente perigoso.]

Começa assim o ciclo de violência contra uma mulher:
Mulher frágil, carente e triste,
vítima perfeita por vários nomes.
Macho, viril, o que a conduz, destemido,
falso forte, longe de ser verdadeiramente um Homem.

[Seja em extinção ou apoiado em uma superestimada maioria, nunca se engane, o Novo Homem das Cavernas é um bandido e também um doente. Quem agride, antes se revela também um fraco! Homem que é homem de verdade, respeita e protege; é consciente da sua força física!]

Ciclo mortal, opressor e oprimida.
Há de se dar um basta, um tratamento.
Foi agredida? Grite, denuncie!
Com violência mais violência se gera!

[Abaixo a covardia e a opressão; e vamos juntos, homens e mulheres, na construção de um mundo civilizado! Abaixo o Novo Homem das Cavernas, o eterno sujeito raso!]

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.

Criançada na Rua (Roberto Camilotti)

Repetindo-se em um enigma,
a criançada criançando na rua.
Meninos, meninas e cachorros,
os cataventos cataventando cultura.

Em um jardim verde, podado e florido,
reinam os brancos, os amarelos e o azul.
No solo negro, reinos restritos, os formigueiros,
contemplando uma estranheza infinita, a que perdura.

Cataventos que giram sozinhos.
Mês de junho: alvoroço na turma!
Alegremente como a tarde é para o Sol,
cantigas, bandeirolas, quentão e quentura!

Felicidade: cataventos girando sozinhos!
Alegria: a meninada criançando na rua!
E que se ajuntam em uma tarde para lá de feliz,
cataventos dançantes, alegres, coloridos com doçura.

Festa Junina: cantigas de roda com a turma!
Cataventos em festa: consonância mais pura!
Por outros junhos repitindo tal enigma
e por mais criançadas criançando na rua!

Poesia tirada do Blog Roberto Camilotti.